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Porque o Brasil está em conflito, e porque permanecerá em conflito

O que acontece com o Brasil e os brasileiros é um dilema muito grande, envolvendo o povo de um lado, que não tem vinculações com o Estado brasileiro, e estamentos umbilicalmente ligados ao aparelho estatal. Esses estamentos são a classe política, a imprensa (grandes veículos de comunicação e jornalistas esquerdistas irmanados), as corporações públicas e empresariado que sempre viveu de protecionismo, subsídios públicos, ou seja, membro do paracapitalismo estatal brasileiro).

Essa enorme presença do Estado na vida nacional, na interferência de todos os assuntos, não é coisa recente. Isso tem uma longa história que pode ser remontada ao final do Século 19, quando se sacralizou no Rio Grande do Sul o positivismo, expresso na figura de Julio de Castilhos, o déspota esclarecido. O positivismo tinha por metas a Ordem e o Progresso na vida pública. Esses mesmos lemas que estão impressos na bandeira brasileira, colocados nela pelos positivistas que derrubaram o Império e instalaram a República no Brasil.

Julio de Castilhos foi sucedido por um longo período no governo do Rio Grande do Sul por Borges de Medeiros. E este foi sucedido por Getúlio Vargas, dileto filho do positivismo. Os positivistas acreditavam que era preciso educar as massas antes que elas pretendessem cuidar de suas próprias vidas. E a educação era então um trabalho do Estado. Fundaram escolas por todo lado no Rio Grande do Sul, em prédios que seguiam a orientação arquitetônica positivista, em forma de templos.

Getúlio Vargas, por meio da ação de seu secretário da Justiça e do Interior, Oswaldo Aranha, logrou alcançar a paz entre maragatos e chimangos, com o compromisso de fundação do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, estatal, para financiar a produção rural. Portanto, o Banrisul é uma espécie de tótem no Estado, razão pela qual ninguém se atreveu a privatizar esse mamute até hoje.

Pacificado o Rio Grande do Sul, Getulio Vargas teve forças militares reunidas para promover a sua marcha de 1930 ao Rio de Janeiro e tomar o poder federal, onde se instalou por 15. Do Palácio do Catete ele comandou a modernização positivista do Estado nacional. Criou carreiras e implantou diretrizes em todas as áreas. E promoveu o impulso da industrialização do País, com a implantação da siderurgia no Brasil, o que extraiu dos Estados graças ao acordo para a entrada na Segunda Guerra Mundial ao lado dos aliados.

Do positivismo é extraído o princípio de socorrer aos pobres, educando-os para que se sintam preparados para conduzir as suas vidas e as dos outros, para o progresso, enfim. Auguste Comte, o fundador do positivismo, tinha sido secretário particular do Conde Saint Simon, um dos expoentes máximos do socialismo utópico, na parte final do século 18 e no princípio do Século 19.

Ao final da Segunda Guerra, Getúlio Vargas cai do poder. No final dessa década de 40 é fundada a Cepal, Comissão Econômica Para a América Latina e Caribe. Da escola da Cepal saem as teorias keynesianas que dão embasamento para os populismos da América Latina de toda espécie, sempre com a inspiração máxima do intervencionismo estatal no campo da atividade econômica, o que produz uma série de consequências em todas as áreas da vida social.

Dali saem Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e José Serra, por exemplo. É a Cepal que desenvolve as teorias do capitalismo tardio na América Latina, do capitalismo periférico, onde não há poupança necessária e suficiente nas sociedades para impulsionar o desenvolvimento das mesmas e, por consequência, da necessidade de o Estado assumir esse papel. Dali sai, portanto, o veio inicial do estatismo nas sociedades latino-americanos, até o ponto em que hoje o Estado está presente em todas as nações deste imenso sub-continente. E dali sai a nefasta teoria do endividamento do Estado para o financiamento do desenvolvimento. Isso levou, finalmente, depois de um longo período, de quase 70 anos, ao desastre fiscal de todas essas sociedades, literalmente, à quebra dos estados nacionais. É o que acontece na Argentina, na Venezuela, na Bolívia, etc….. e também no Brasil, que só não avançou para as ditaduras socializantes porque houve uma insurreição da população que escolheu um governo de direita.

A proposta desta direita é conservadora nos costumes e liberal na economia. A direita no governo quer restaurar a Ordem, liberando armas para o povo, para que ele possa garantir sua vida e sua liberdade. A ordem como condição sine qua non para a retomada do progresso na vida econômica.

Essa direita quer governos que acabem com a intervenção do Estado na economia, nos quais o Estado deixa de financiar o desenvolvimento, tarefa que fica atribuída às montanhas que capitais que rondam pelo mundo em busca de empreendimentos nos quais possa investir seus recursos em financiamentos produtivos. Essa direita precisa empreender um vigoroso processo de desestatização da economia, passando pela privatização das centenas de estatais que já não cumprem o papel para o qual foram originalmente criadas.

Tudo isto sofre uma violenta obstaculização de retrógrados corporativas estatais de todos os quadrantes, em todos os campos, seja na cultura, na economia, no meio ambiente, na educação, enfim, todas as iniciativas do governo são atacadas por todos os lados, todos os dias, por uma miríade de predadores históricos do Estado brasileiro.

Há uma aliança implícita de donos de meios de comunicação, jornalistas esquerdistas (que são a quase totalidade nos veículos da imprensa), políticos (sejam lá parlamentares de esquerda, de centro, fisiológicos, acostumados a roubar os recursos públicos de maneira inescrupulosa e escalizante em todos os momentos), corporações estatais (segmento mais atrasado, completemente oposto a mudanças, aferrada na defesa centenária de privilégios), nas quais pontificam o Poder Judiciário e os Ministérios Públicos, e um empresariado de cultura sanguessuga, que sempre se manteve nos negócios e extraiu seus lucros do sangue do povo que produz a riqueza estatal, da sua ligação umbilical com o aparelho do Estado. Essa é a razão profunda da implantação de um regime essencialmente corrupto que assola o Brasil especialmente a partir de 1988, com a promulgação da Constituição brasileira, que consagrou este pacto. Um pacto do qual o povo foi excluído.

Esta enorme aliança retrógrada, anti-reformas, tremendamente contrária à profunda reforma da vida nacional que é necessário, opõe-se de maneira tenaz à vontade do povo brasileiro que foi expressa nas urnas há menos de dois anos.

Esse amplo reacionarismo, no qual se inserem partidos de esquerda e do Centrão, rádios, jornais, televisão, jornalistas esquerdistas, parte do empresariado e, especialmente, juízes e ministros das Cortes superiores, mais procuradores de todas as esferas, tratam de defender a ferro e fogo o pacto espúrio do qual foram os grandes beneficiários.

Em outros tempos, a posse e manutenção desses privilégios teriam sido mais fáceis para essa gente toda, porque a opinião pública era completamente manipulada. A novidade que se vive hoje é a emergência da Internet e das redes sociais, e a ampla difusão da telefonia celular, o que permitiu que gigantescas camadas da população, no País inteiro, mesmo nos lugares mais remotos, tivesse acesso a uma informação não controlada, não dirigida, e que pudesse se informar e trocar experiências independente dos aparelhos de controle social que até então tinha sido dominados pelos exploradores de sempre. Por isso o Brasil está em conflito, e permanecerá em conflito, até que este quadro histórico de dominação seja ultrapassado e se instaure de fato um verdadeiro estado democrático no País, no qual não impere mais a cultura esquerdista que promove o regressismo, o autoritarismo, o segregacionismo, o atraso, em todos os campos. (jornalista Vitor Vieira)

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