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Os 55 abutres do Rio Grande do Sul sentiram cheiro de sangue no ar, estão à espera da carniça do corpo político de Eduardo Leite

Na natureza existem os animais que são predadores, caçadores, e aqueles que vivem de carniça. Estes, compostos especialmente pelos urubus e abutres, são aves que planeiam a boa altura, aproveitando-se das correntes ascendentes de ar quente, quase sem precisar bater asas, e ficam vigiando animais sangrando, feridos, ou em agonia, para se aproveitaram da carniça. Vivem de carniça. São animais lixeiros.

A classe política é composta de urubus, abutres. Os políticos, especialmente aqueles dotados de mandatos parlamentares, ficam no seu planeio, observando o governante. Se ele mostrar sinais de fraqueza, esses urubus políticos se prepararão para o banquete de carniça.

O governador do Rio Grande do Sul, o tucano Eduardo Leite, começou a sangrar e aguçou a urubuzada política. Começou a sangrar no dia 19 de setembro, quando precisou avisar ao mercado, por meio da publicação de um “fato relevante”, que estava retirando a sua proposta de venda de ações do Banrisul que seria realizada nesse dia.

O governo de Eduardo Leite foi obrigado a desistir da operação porque o mercado sinalizou que o preço por ação ficaria muito abaixo do estimado pela administração pública gaúcha. O governador Eduardo Leite tinha a expectativa de arrecadar cerca de R$ 2,3 bilhões com o negócio. No entanto, a oferta pelas ações do banco ficou em um valor cerca de 20% menor que o previsto.

O tucano Eduardo Leite pretendia usar o dinheiro da venda dos papéis para pagar contas atrasadas, como o quase 1 bilhão devido ao sistema de saúde do Estado, hospitais, laboratórios e profissionais, e colocar em dia o pagamento dos funcionários públicos. Eduardo Leite escolheu esse caminho para enfrentar a falência das contas públicas porque não tinha outra saída no momento, já que não existe a menor possibilidade de fechar ainda este ano o contrato de recuperação fiscal do Estado com a União.

O Tesouro Nacional não aceita apenas a entrega de estatais de menor valor, como CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica, falida), CRM (Companhia Riograndense de Mineração) e Sulgas. As três juntas não cobrem sequer uma quinta parte da dívida pública do Rio Grande do Sul.

Portanto, seria necessário entregar algo mais valioso. Nesse caso, o Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul). O mercado não aceitou as suas ações pelo preço pretendido pelo governo de Eduardo Leite, mas estaria disposto a pagar até o triplo do valor patrimonial do Banrisul no caso de privatização da instituição. Então as esperanças de Eduardo Leite passaram a se focar na aprovação do projeto de emenda constitucional do deputado estadual Eduardo Turra, prevendo a eliminação do dispositivo que impõe a realização de plebiscito para autorização de venda de estatais, entre elas o Banrisul.

Ele conseguiu 25 assinaturas para apresentar seu projeto, mas são necessários os votos de 37 dos 55 deputados para a aprovação da alteração da Constituição. Aí é que entra a urubuzada. Os 55 abutres perceberam que o governador está sangrando, que sua gestão foi colocada diante do dilema supremo: ou continua, com sucesso, o seu projeto de reforma estrutural da administração pública gaúcha, ou “termina” o governo, antes mesmo de se completar um ano de administração.

Eduardo Leite deu entrevistas dizendo que apoiaria a iniciativa parlamentar. Ora, até criança sabe que o projeto é, na verdade, do seu governo, Sérgio Turra agiu apenas como o “cavalo” que porta o santo. Paralelamente, Eduardo Leite sinaliza com o envio à Assembléia Legislativa de projetos de leis que alteram planos de carreira e retiram benefícios do funcionalismo.

Também a urubuzada petista, especialmente reunida no sindicato dos professores, o Cpers, que se dedica meticulosamente à destruição da educação pública no Rio Grande do Sul há 40 anos, resolveu iniciar combate ao governo de Eduardo Leite e se declarar em estado de greve, como se isso fosse uma novidade nas últimas quatro décadas.

Ou seja, Eduardo Leite mexeu com o abelheiro na hora da sangria. Se há alguma coisa que a urubuzada política gaúcha respeita, tem profundo temor, é dos corporativismos estatais. Pode cair o mundo, menos os privilégios das corporações estatais. Não por acaso o Estado afundou na falência, que já era prevista, com toda clareza, há no mínimo nos últimos 35 anos.

E ainda há um agravante: 2020 é ano eleitoral, quando devem ser eleitos vereadores e prefeitos. Estes dois tipos de urubus menores serão os diretos responsáveis pelas reeleições dos urubus maiores, deputados estaduais, federais, senadores, governadores e presidente da República, em 2022. E os urubus estaduais estão de olho em 2022.

Portanto, é muito grande o indicativo de que o governo de Eduardo Leite acabou antes mesmo de ter se concluído o primeiro ano de sua administração. Ele permanecerá no cargo por mais três anos, mas como um zumbi, zelador de folha de pagamento do funcionalismo, apenas isso. E as chances de saída do Rio Grande do Sul da falência das contas públicas fica postergada.

Com a recuperação da economia nacional que se anuncia, seriam cada vez menores as hipóteses de um ministro como o da Economia, Paulo Guedes, ter o mínimo de condescendência com um Estado, o Rio Grande do Sul, cuja urubuzada se mostra renitente até a medula na compreensão de que é preciso entregar os anéis para não perder os dedos, como já vaticinou o conde Giuseppe Tomasi di Lampedusa, em seu magistral romance “Il Gattopardo”.

Nessa obra prima, Tancredi, sobrinho arruinado de Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, incitando seu tio cético e conservador a abandonar sua lealdade aos Bourbons do Reino das Duas Sicílias e aliar-se aos Saboia, diz a frase lapidar: “A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

No Rio Grande do Sul, nem isso os 55 urubus se mostram dispostos a entender. Eles preferem repetir o “Flautista de Hamelin”, dos irmãos Grimm, e seguirem todos em ordem unida para o precipício. Não é de estranhar que tantos gaúchos saiam do Estado, e tampouco que o Rio Grande do Sul esteja aceleradamente sendo suplantado pelo Paraná e os dois Estados do Mato Grosso. Em um certo sentido, a história parou no Rio Grande do Sul. (Vitor Vieira)

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Comments (1)

  1. Parabéns pela análise, Vítor Vieira!
    Perfeita.

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