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Fundos perdem milhões na Argentina e reduzem exposição ao Brasil em busca de caixa

Grandes fundos internacionais estão amargando perdas milionárias com a crise na Argentina. Gestoras como as americanas Franklin Templeton, Fidelity, T. Rowe Price e Pimco e a inglesa Ashmore registraram quedas expressivas em suas carteiras expostas aos ativos no país vizinho. Para compensar os prejuízos, os gestores estão reduzindo exposição também no Brasil, em busca de caixa para fazer face a possíveis saques, e também intensificaram a busca por hedge (proteção) no mercado cambial brasileiro. A Franklin Templeton perdeu US$ 1,8 bilhão em apenas um dia na Argentina, na segunda-feira, 12, segundo o jornal Financial Times.

Somente uma das carteiras com ativos do país teve queda de 3,5% naquela sessão, um dia após o presidente Mauricio Macri perder por ampla margem as eleições primárias. Na Fidelity, um dos fundos de bônus dedicados a emergentes, que tem exposição de 11% na Argentina, houve perda de 3,6% na semana passada. Segundo o Wall Street Journal, muitos fundos americanos têm mais de 10% do patrimônio alocados em bônus argentinos. Como o Brasil é o país com o mercado financeiro mais líquido da América Latina, acaba sofrendo com a zeragem de posições no país vizinho, diz o sócio e gestor da Paineiras Investimentos, David Cohen. A Argentina não tem liquidez suficiente para fazer face a todo o movimento de redução de exposição, explica.

O gestor da TAG Investimentos, Dan Kawa, afirma que alguns grandes fundos dedicados a emergentes sofreram perdas relevantes em ativos da Argentina nos últimos dias. “Com a perspectiva de resgates desses fundos, os gestores precisam fazer caixa e acabam reduzindo posição nos ativos mais líquidos e mais expostos, como é o caso de Brasil”, observa ele, destacando que o contágio atual é mais “técnico”, também influenciado por um movimento mais amplo de redução de posições em ativos de emergentes.

Um dos maiores temores dos investidores é de novo calote da Casa Rosada. As taxas do Credit Default Swap (CDS) – um termômetro do risco país – da Argentina subiram mais de mil pontos em um único dia. Os fundos de índice (ETF) que reproduzem ativos de emergentes, tiveram na semana passada a maior saída de recursos dos últimos cinco anos. Um gestor em Londres não vê saída fácil para a crise argentina, na medida em que os resultados da primária indicam que Macri praticamente não tem mais chances de vitória. Ele ressalta que o candidato peronista, Alberto Fernández, vem tentando acalmar os mercados, mas a volatilidade alta vai ser o “novo normal” e continuará pressionando o mercado financeiro brasileiro.

“No curto prazo, até por razão de gestão de risco, é natural que, se o investidor tem exposição grande em determinada região (a América Latina) e um pedaço vai mal, você nem sempre pode tirar só daquele pedaço (a Argentina), porque no curto prazo pode não ter liquidez para isso”, afirma o economista e professor da Universidade de Columbia, em Nova York, José Alexandre Scheinkman. “O investidor quer sair da Argentina, mas o país não tem toda liquidez, ele também vende o que tem no Brasil.” Um dos reflexos da redução de exposição dos estrangeiros ao Brasil é a forte saída de recursos externos este mês. Só na B3, o saldo está negativo em R$ 9 bilhões. No ano, a fuga de capital chega a R$ 19,4 bilhões. “A Argentina deve seguir por caminhos sinuosos e incertos nos próximos meses”, observam os estrategistas do JPMorgan, Diego Pereira e Lucila Barbeito.

O banco americano rebaixou as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país, esperando contração de 2,3% este ano, ante 1,2% previsto anteriormente. O candidato peronista populista Alberto Fernandez venceu as eleições por inesperada ampla margem, desencadeando uma forte correção nos mercados. O índice Merval da Bolsa de Buenos Aires despenca 33% no mês e o dólar acumula alta de 25% ante o peso desde 1º de agosto. Só nos últimos 30 dias, o CDS já disparou 260%.

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