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China compra US$ 1 bilhão em algodão dos Estados Unidos sem necessidade

A China comprou mais de US$ 1 bilhão em algodão dos Estados Unidos nos últimos três meses – sem precisar do produto. As compras – que fazem parte do acordo comercial de primeira fase entre os governos de Washington e Pequim – coincidem com lojas de roupas fechadas pela pandemia, o que esmaga a demanda. Isso significa que as estatais chinesas estão acumulando o algodão comprado, reduzindo as perspectivas de novas importações.

O acordo comercial exige que a China compre US$ 36,5 bilhões em produtos agrícolas dos Estados Unidos neste ano. O compromisso criou uma desconexão entre a demanda real e as compras, que ocorrem no ritmo mais rápido desde 2013.

Mais de 50% dos defaults relatados à Associação Mundial de Exportadores de Algodão e à Associação Americana de Exportadores de Algodão no último ano envolveram contrapartes chinesas. “As recentes compras chinesas não foram correlacionadas com a demanda downstream”, disse Jon Devine, economista-chefe da consultoria Cotton Inc, com sede em Cary, Carolina do Norte.

“Acredita-se que grande parte desse algodão seja destinado ao sistema de reservas da China. Se entrar no armazenamento, poderá ser usado contra a demanda futura e compensar compras futuras”.

A propagação da Covid-19 causou estragos no setor global de algodão, com paralisações e pedidos de recuperação judicial de varejistas, incluindo J.C. Penney e Neiman Marcus. O consumo mundial de algodão deve cair em 23 milhões de fardos, a maior queda já registrada, segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Os moinhos chineses não registram aumento de pedidos desde junho, e 45% das instalações pesquisadas estavam perdendo dinheiro até o final daquele mês, 17 pontos percentuais a mais do que no ano anterior, segundo a Associação Têxtil de Algodão do país.

A capacidade de utilização em moinhos dos Estados Unidos também caiu para nível recorde. “Embora a agricultura tenha sido considerada crítica e essencial e as cadeias de suprimentos tenham permanecido abertas, as vendas de roupas no varejo sofreram muito devido aos fechamentos”, disse Buddy Allen, presidente da American Cotton Shippers Association. Isso causou uma “onda de disrupção na cadeia global de fornecimento de algodão, criando custos enormes, perdas e riscos para os participantes”.

O Brasil, concorrente na exportação de algodão, também sente o aperto. Clientes privados chineses não estão comprando algodão brasileiro, mesmo com os preços mais baixos, disse Marco Antonio Aluisio, vice-presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea). Ele acrescentou que o acordo comercial EUA-China foi uma má notícia para o Brasil.

As compras chinesas de algodão dos Estados Unidos ainda podem aumentar como resultado dos compromissos do acordo de primeira fase, disse Wang Qianjin, chefe do departamento de informações da Bolsa de Algodão Internacional de Xangai. A China ainda está longe de atingir a meta. “Estamos empolgados em ver esse aumento das compras, mas reconhecemos a lacuna que ainda existe nos compromissos”, disse Allen: “Esperamos ver maior utilização dos moinhos chineses e ao redor do mundo muito em breve, caso contrário, estamos apenas transferindo estoque dos EUA para o balanço chinês”.

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