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Carlos Ghosn, foge da prisão no Japão e chega ao refúgio no Líbano

O ex-presidente da Renault-Nissan, o brasileiro Carlos Ghosn, que é réu no Japão, escapou para o Líbano. A viagem clandestina foi confirmada por fontes próximas à família do ex-executivo. Ainda não está claro como Ghosn (que possui tanto a cidadania francesa quanto a libanesa) poderia deixar o Japão, onde cumpria prisão domiciliar. O ex-executivo desembarcou no aeroporto Rafic Hariri, em Beirute, viajando em um jato particular desde Istambul.

A multinacional automobilística Nissan demitiu Ghosn, afirmando que investigações internas da montadora revelaram conduta indevida por ocultação de seu salário, quando ele era presidente executivo da empresa, e transferência de US$ 5 milhões em recursos da Nissan para uma conta na qual ele tinha participação.

Ele enfrenta quatro acusações, incluindo ocultação de renda e enriquecimento irregular. O ex-executivo nega as acusações. Segundo seus advogados, os promotores conspiraram com funcionários do governo e executivos da Nissan para tentar prejudicá-lo. Ghosn foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado, sendo solto quatro meses mais tarde, depois de pagar fiança.

Em abril, um mês depois de ser libertado, o ex-executivo foi novamente para a cadeia. Após pagar uma outra fiança, ele deixou novamente a prisão, ainda em abril, mas estava sujeito a uma série de condições restritivas, entre elas, a exigência de que ele ficasse no Japão.

Durante várias semanas no inverno passado, o rosto de Carlos Ghosn parecia inevitável na capital libanesa: aparecia sem aviso nos outdoors digitais normalmente dedicados a propagandas de planos para celulares e carros de luxo. “Somos todos Carlos Ghosn”, anunciavam o texto, declarando apoio ao homem acusado no Japão de ser um titã corporativo que fez coisa errada.

Agora, o verdadeiro Carlos Ghosn se materializou em Beirute – conseguiu voltar para casa. Como conseguiu passar pelo controle de passaportes em pelo menos dois países sem nenhum de seus três passaportes (brasileiro, francês e libanês)? Quem o ajudou? Será que fugiu dentro de uma caixa, como dizem alguns relatos não confirmados?

“É uma aventura da vida real”, disse Ricardo Karam, apresentador de televisão libanês que entrevistou Ghosn em seu programa e que, segundo boatos, teria fornecido um lugar para o fugitivo ficar. “Parece coisa de filme”. Com ou sem caixa, Ghosn encontrou no Líbano um esconderijo seguro. O país está atravessando uma crise financeira e política, e seu novo governo, que ainda não existe oficialmente, enfrenta persistentes protestos e um colapso econômico em câmera lenta.

Mesmo que as coisas estivessem menos complicadas, o Líbano não tem tratado de extradição com o Japão: xeque-mate. Além disso, os moradores de Beirute parecem satisfeitos por recebê-lo. Alguns deles, pelo menos. “Estou surpreso e feliz. Toda a família é solidária a Carlos”, disse Sandra Nader, parente de Ghosn.

“Estamos orgulhosos de suas realizações e do que ele fez no Exterior”, disse Mireille Firzli, que fazia compras de Ano Novo na tarde de terça-feira. “Não é justo mandá-lo para a cadeia”. Ghosn nasceu em uma família libanesa no Brasil, lar de uma grande comunidade da diáspora libanesa, e foi educado em Beirute e na França, lar de outra grande comunidade libanesa.

Seu pai mudou a família do Rio de Janeiro para Beirute quando Ghosn tinha 6 anos. Desde então, Ghosn viveu o sonho libanês. Se os libaneses não são, como diziam os outdoors, “todos Carlos Ghosn”, muitos querem ser. Gerações de libaneses deixaram o país para fazer fortuna no Exterior, fugindo da guerra civil, da instabilidade e de uma economia que oferece pouco aos jovens.

Ghosn foi um exemplo desse caminho: escolas de prestígio em Paris, promoções dentro da Michelin na França e depois nos Estados Unidos, presidência de um império automotivo multicontinental – o qual abarcava Nissan, Mitsubishi e Renault. Tinha casas em Tóquio, no 16º arrondissement de Paris e no Rio de Janeiro, além de um jato particular para levá-lo a estes e outros lugares.

Mas, durante toda a sua ascensão global, Ghosn continuou orgulhosamente libanês e os libaneses continuaram orgulhosos dele. Suas duas primeiras esposas são libanesas. Ele se formou no bairro de classe média de sua infância, em Achrafieh, onde mantinha um imaculado casarão cor de rosa – que, segundo uma investigação interna da Nissan, uma subsidiária da empresa comprou por US$ 8,75 milhões e reformou por outros US$ 6 milhões, uma das várias propriedades que a subsidiária pagou para Ghosn usar em todo o mundo.

Na terça-feira, um segurança particular estava postado diante da mansão rosa, mas não havia sinal de Ghosn. Ele emitiu uma declaração por meio de uma porta-voz anunciando que “não seria mais refém do fraudulento sistema judicial japonês”. E acrescentou: “Não fugi da justiça – escapei da injustiça e da perseguição política”.

Ao fugir do Japão para o Líbano, Ghosn trocou um país em que a rigidez do sistema judiciário é fiscalizada por um país em que o judiciário é notoriamente politizado e o Estado de Direito, notoriamente inconstante. Mas a mesma atmosfera de impunidade que pode ajudá-lo está sendo atacada por algumas pessoas que um dia o celebraram como um herói popular.

Os atuais protestos contra o governo – que começaram em meados de outubro e levaram às ruas um quarto da população de 4 milhões de libaneses – miraram as elites políticas, os banqueiros e empresários e a corrupção que, segundo dizem, enriquece todos eles.

Cantando “Devolvam o dinheiro roubado”, os manifestantes exigiram um novo sistema político, novos líderes, um sistema bancário supervisionado e um judiciário independente, que, esperam eles, possa julgar políticos e empresários corruptos.

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