Porto Alegre,
quinta-feira, 02 de setembro de 2010 - 18h41min
Justiça Federal gaúcha condena delegado de polícia e advogado por extorsão de binqueiro Seis pessoas foram condenadas pelo furto de um processo criminal da 3ª Vara Federal Criminal de Porto Alegre e por tentativa de extorsão. Em 16 de janeiro de 2004, Fernando Natalino Fernandes Neto, contratado por alguns dos condenados, foi até o Fóro Federal localizado junto ao Parque Harmonia, no centro da capital gaúcha, subiu até o cartório da 3ª Vara Federal Criminal, pediu para ver um processo que tinha como réu o bingueiro Rogério Daniel Reuter e, quando o responsável pelo cartório se afastou do balcão, ele saiu correndo com o processo. Na frente do Foro Federal, tomou um táxi e seguiu para o centro de Porto Alegre. O funcionário do cartório saiu logo atrás, mas não conseguiu encontrar o homem que havia roubado o processo. Entretanto, descobriu o taxista que tinha feito a corrida. A partir daí a Polícia Federal foi acionada pela Justiça Federal e começou a investigar. Em pouco tempo chegou ao nome dos autores intelectuais do crime, entre eles advogados de escritório afamado localizado no sofisticado bairro Moinhos de Vento, e um delegado da Polícia Civil. Como a Polícia Federal chegou aos autores intelectuais do crime? Ora, de posse do processo roubado, eles fraudaram uma folha do mesmo, fazendo uma falsa ordem de prisão e de busca e apreensão contra o bingueiro Rogério Daniel Reuter, do qual pretendiam extorquir em torno de 300 mil reais, para que não fossem executadas as supostas ordem de prisão e de busca e apreensão em seus imóveis. O bingueiro Rogério Daniel Reuter consultou seu advogado sobre a extorsão que estava sofrendo, e os dois resolveram denunciar tudo para a Polícia Federal. Rapidamente, os policiais federais chegaram aos nomes dos autores intelectuais. Um deles, o delegado Luiz Carlos Correa Ribas, da Polícia Civil, confrontado com a hipótese de ser mandado imediatamente para a prisão, entregou tudo, e levou os policiais federais até o local onde estava escondido o processo roubado da 3ª Vara Federal Criminal, o qual foi encontrado dentro de um maloteiro do Aeroporto Salgado Filho. Agora, após uma instrução processual repleta de incidentes, seis réus foram condenados nesse episódio do roubo do processo do Foro Federal de Porto Alegre. A lista dos condenados em primeiro grau é a seguinte: 1) Fernando Natalino Fernandes Neto, pela prática do delito de subtração de processo, a uma pena de um ano e onze meses de reclusão no regime inicialmente aberto; 2) Edson Luiz Keller Cintrão, pela prática do delito de subtração de processo, a uma pena de dois anos e quatro meses de reclusão; 3) Luiz Carlos Correa Ribas, condenado pela prática do delito de tentativa de extorsão, recebeu uma pena de quatro anos e quatro meses de reclusão no regime inicial semiaberto; 4) Roberto da Costa Gama de Carvalho, condenado pela prática do delito de tentativa de extorsão, recebeu uma pena de quatro anos e quatro meses de reclusão no regime inicial semiaberto; 5) Jorge Michel Geara, condenado pela prática do delito de tentativa de extorsão, recebeu uma pena de cinco anos de reclusão no regime inicial semiaberto (Geara foi considerado o mentor e principal articulador do grupo que furtou o processo e tentou extorquir Rogério Daniel Reuter); 6) Roberto Abílio Barcellos, condenado pela prática do delito de tentativa de extorsão, recebeu uma pena de dois anos e oito meses de reclusão no regime inicial aberto. Mas, quem é esse delegado Luiz Carlos Correa Ribas, da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, agora condenado a quatro anos e quatro meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, pela prática do delito de tentativa de extorsão? Ora, ele foi o "chefe de gabinete" do então secretário de Segurança do Rio Grande do Sul, deputado federal Enio Bacci, do PDT, que teve uma atribulada e controvertida gestão na direção da secretaria, e que foi demitido do cargo pela governadora Yeda Crusius (PSDB). Esse foi o motivo para que o PDT resolvesse sair do governo de Yeda Crusius, apesar de Eni Bacci ter sido demitido por causa de uma série de acusações, que envolviam inclusive a forma como obteve uma luxuosa lancha cabinada que está ancorada em marina perto da ponte do Guaíba. Várias testemunhas já viram o deputado federal fazendo festa a bordo desta lancha em finais de semana. Sua gestão também foi acusada por permitir a negociação de remoção de delegados, a partir de pedidos de bingueiros e bicheiros. Na época inclusive se falava em uma tabela de preço, com valores variáveis, dependendo do tipo de delegado e da localidade ou orgão policial que ele chefiava. O delegado civil Luis Carlos Correa Ribas é irmão do delegado civil aposentado Eduardo Pinto de Carvalho, que foi chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Sul em 1987, durante o governo Pedro Simon (PMDB). Na época ocorreu o assassinato do deputado estadual José Antonio Daudt (PMDB), radialista do grupo de comunicação gaúcho RBS. A investigação realizada na época, sob a chefia de Eduardo Pinto de Carvalho, não podia ter sido mais confusa. Em um certo momento, correu a informação de que, em uma coletiva de imprensa convocada pela chefia de imprensa, seria apresentado como indiciado pelo assassinato de Daudt o economista Cristiano Tatsch, atual secretário da Fazenda da Prefeitura de Porto Alegre. No fim, Eduardo Pinto de Carvalho denunciou o deputado estadual Antonio Dexheimer. A justificativa para indiciá-lo foi a mais precária possível, falava de crime passional. Dexheimer teria matado Daudt por ciúme de sua relação com sua ex-mulher. Ocorre que o radialista José Antonio Daudt era homossexual. Dexheimer foi absolvido em julgamento pelo Pleno do Tribunal de Justiça. Essa investigação deixou de levar em conta informações que seriam importantes, como por exemplo o que José Antonio Daudt faria na segunda-feira (ele foi assassinado no dia 4 de junho de 1987, um sábado), ao reassumir o seu mandato na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Duas dessas decisões de José Antonio Daudt teriam tido amplas repercussões: a) estaria propenso a demitir importante funcionário do seu gabinete; 2) faria discurso ao seu estilo, inflamado, para propor a instalação de uma CPI para investigar o tráfico de drogas no Rio Grande do Sul comandado por importantes oficiais da Brigada Militar. Isto nunca foi apurado. Durante a investigação do assassinato desapareceu o conteúdo de uma gravação da fita magnética do telefone direto do apartamento de José Antonio Daudt. O editor de Videversus, jornalista Vitor Vieira, na época secretário de Redação do jornal Diário do Sul, em Porto Alegre, ouviu o conteúdo dessa fita. Tratava-se de comentários de ordem sexual entre Daudt e policiais militares destacados para a segurança pessoal de Daudt. Entre eles um policial rodoviário. O delegado civil Luis Carlos Correa Ribas, agora condenado em primeiro grau na Justiça Federal, antes de ir para o gabinete do então secretário de Segurança, deputado federal Enio Bacci, estava destacado no gabinete do vice-prefeito de Porto Alegre, o médico Eliseu Santos (PTB), agora assassinado no final de fevereiro por ladrões de automóveis. O delegado Luiz Carlos Correa Ribas precisou retornar ao serviço na Polícia Civil porque sua aposentadoria havia sido anulada pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Outro dos condenados neste processo também é figura notória no Rio Grande do Sul. Trata-se do advogado Roberto da Costa Gama de Carvalho, que é irmão do também advogado e ex-presidente do Sport Clube Internacional, Fernando de Carvalho, hoje diretor de futebol do clube. Neste terça-feira, a notícia com o resultado do julgamento foi distribuída para toda a imprensa gaúcha pela assessoria de imprensa do Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul. Curiosamente, o maior grupo de comunicação do Estado, a RBS, em seu programa de rádio com notícias às 19 horas, e o site ClicRBS, omitiram completamente os nomes dos condenados em primeiro grau e a história envolvendo toda esta lambança. Confira no link a seguir a forma como a RBS tratou do assunto: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a2832742.xml . O leitor, agora conhecendo todos os detalhes narrados acima, decida se deveria ou não conhecer todos esse detalhes, omitidos pela RBS. E, quem quiser conhecer detalhes desse processo, ele é o de número 2004-7100010247-5, na 3ª Vara Federal Criminal, em Porto Alegre.
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